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Três meninas estáticas

Um museu cravado no meio da Vila Mariana guarda histórias, um café, estátuas e quadros

Três jovens olham atentas algumas pessoas sentadas no pátio. São seis mesas, duas pilastras e dezessete pessoas – sem contar os dois seguranças da entrada, posicionados a sete passos dali, e as duas moças, que estão dentro da cozinha do café. As três jovens ouvem todas as conversas e veem, em duas das mesas, dois, dos três solitários (de pernas cruzadas) degustarem, lentamente, seus cafés. Todos ouvem o liquidificador, que bate um suco de melancia que o terceiro solitário irá tomar, acompanhado de uma empada de palmito. “Esse produto é mais rápido”, alguém fala em uma mesa. “Todos têm o mesmo gosto”, explica outra. “Alguém quer paçoca?”, pergunta uma. “Meus avós vieram e casaram-se aqui”, relembra uma senhora. “Vocês acabaram com tudo”, reclama a moça que mexe na caixa de sachês de chás. “Quanto mais espessa a clara, mais fresco é o ovo”, esclarece uma senhora sentada. “Na boa, eu me divirto até o Largo Treze, depois…”, brinca. Riem, conversam, caminham, se beijam, se abraçam. “Augusto, vamos casar?”, pergunta uma moça que está de pé. Ele responde: “casar? Nem cheguei ainda.” (todos riem) “Alguém quer um café”, pergunta Augusto. “Eu achei que era um pedaço de paçoca. Tem um monte”, se espanta uma. “Tem que fazer as coisas ficarem mais dinâmicas”, interrompe uma. “É só entrar no Facebook que você vê todas as formas e posições”, indicam. “Essas conversas….”, brinca um. “It’s just a voice”, comenta outro.

As três jovens, que não passam de um metro e meio, continuam com seus olhos estáticos observando o pátio coberto. Já passa das seis horas da tarde de um sábado. O céu está escuro. São Paulo está fria. As três jovens, porém, continuam ali, de pé. Elas vestem vestidos leves, desses que marcam o corpo. Todos os outros vestem agasalhos e alguns até arriscam cachecóis.

Do lado esquerdo do pátio uma placa: Segall Pinturas. A entrada fica em uma porta à direta, indicada por uma seta. Por ali passam cerca de 30 pessoas, durante os dias uteis. “Aos finais de semana vem mais gente, hoje já foram 73”, explica a segurança da porta. Ali, está ela acompanhada de 20 pinturas de Lasar Segall, pintor lituano que veio morar no Brasil aos 32 anos de idade. Ao seguir reto pelo corredor, o caminho acaba em uma sala onde 29 olhos encaram quem passa.

O Museu Lasar Segall está ali desde 1967. Uma casa – “na verdade são três”, comenta a bibliotecária – na Vila Mariana, o museu fica no antigo ateliê do pintor. Na Rua Berta, número 111, com uma porta tímida, o museu divide espaço com paralelepípedos e com belas casas modernistas.

À direita da entrada, um corredor leva a uma biblioteca com 500 mil documentos. “Temos desde programas de peças de teatro até livros de fotografia”, explica a bibliotecária que recebe, no máximo cinco pessoas por dia. Da saída da Biblioteca Jenny Klabin Segall, que era esposa do pintor lituano e tradutora de peças de teatro e que deu o nome ao local, vê-se, ao fundo do corredor, à direita, uma porta para um pátio – outro pátio. Do silêncio do jardim interno, se escuta onze pessoas que se debruçam em uma mesa. Elas olham para o centro dela. No jardim, há duas esculturas entre dois, dos três bancos de madeira, que formam um triângulo central. O que elas ouvem: carros que passam na rua lateral, pássaros e as árvores. Ouvem também, às vezes, alguém que passa, sem perceber, pelas pedras de decoração do centro do triângulo. Trilim. Trilim. Ouvem, a cada três minutos, aviões que passam por ali.

À esquerda da entrada da biblioteca, uma vitrine mostra o avental, materiais e instrumentos de trabalho usados por Lasar Segall, em seu ateliê. Ao lado, a porta da sala de exposições temporárias.

De volta ao pátio central, as três jovens de bronze continuam a ouvir as conversas. “Às vezes a gente retorna de outro jeito”, explica uma senhora que olha pela parte inferior de seus óculos. “Tem tanta coisa em São Paulo”, comenta outro. “Foi na faixa, foi na faixa”, brinca uma outra mulher passando a mão, na diagonal, em seu peito, em alusão à camisa do Vasco. Já são dezenove horas. “Você pode acertar o café? Já vamos fechar”, pergunta a dona do café.

SERVIÇO
Museu Lasar Segall
Rua Berta, 111
Metrô mais próximo: Santa Cruz – Linha 1 (azul)
Horário:
Terça a sábado (e feriados): das 14h ás 19h
Domingo: das 14h às 18h
Site: www.museusegall.org.br

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